 A produção de artistas regionais é um excelente caminho para
apresentar a arte universal
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Edson Ruiz |
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abe aquela feira de
artesanato no caminho para a escola? Ou o violeiro que toca músicas
características da região? Ou, ainda, os costumes e tradições bem
peculiares do lugar em que você vive? Eles têm muito a ensinar. Ao
estimular os alunos a conhecer as manifestações de arte popular que
gravitam ao redor da escola, você estará abrindo uma janela para a
cultura universal. "Mais do que desenvolver a sensibilidade,
alfabetizamos a criança para compreender a produção do mundo
inteiro", afirma a arte-educadora Ana Amália Barbosa, professora
convidada da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São
Paulo. "Assim, ele percebe que quem trabalha perto de casa tem valor
— tanto quanto Tarsila do Amaral ou Auguste Renoir, pois eles
beberam na fonte popular."
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Arte |
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Objetivo: Alfabetizar para a arte
partindo do conhecimento da própria cultura.
Fortalecer a cidadania compreendendo o contexto em
que se vive, formar senso crítico e acumular
bagagem cultural
Como chegar lá: Pesquise temas
populares ligados à realidade da turma. Relacione
as artes regionais com a cultura erudita do país e
esta com os padrões mundiais. Faça oficinas de
desenho e pintura relacionadas à temática popular.
Envolva a garotada em todas as etapas do
trabalho
Dica: Leve artistas populares para
dentro da sala de aula e visite feiras de
artesanato com os alunos. Depois de
explicar o significado de
determinada técnica, faça uma enquete para saber
que trabalhos eles
gostariam de
produzir | | |
É fácil
desenvolver esse trabalho. O primeiro passo é identificar a origem
dos alunos para definir os temas. Você pode fazer isso pedindo, por
exemplo, que eles tragam um objeto de estimação — deles ou da
família. "Conversando sobre o porquê da importância daquele objeto,
o professor pode fazer um retrospecto das raízes culturais e traçar
um plano de ação", afirma Valquíria Prates, coordenadora do Núcleo
Contemplarte, que busca uma nova abordagem para a produção
latino-americana. Ela sugere envolver produção, leitura de imagem e
contextualização não só histórica, mas social e psicológica da
obra.
Num
trabalho com descendentes de estrangeiros (italianos, africanos,
japoneses, árabes, alemães…) você pode pedir um levantamento de
artistas nascidos nos países dos antepassados dos alunos. Depois,
uma pesquisa sobre os descendentes desses povos que vieram para o
Brasil. Aos poucos, todos percebem como a arte se transforma,
mesclando as tradições originais com novas (locais), até se recriar
como uma manifestação popular.
Grafite, argila e ossos Em tempos de globalização,
uma atividade desse tipo se torna ainda mais importante. Agir
localmente com pensamento global é um dos motes que você deve ter em
mente. Exatamente como faz a equipe do programa Universidade
Solidária (Unisol) no Raso da Catarina, uma das regiões mais pobres
e secas do sertão nordestino. O grupo adaptou o grafite —
manifestação urbana surgida nos Estados Unidos na década de 1960 e
que conquistou os jovens da periferia das grandes cidades
brasileiras — ao universo cultural e ao imaginário do sertanejo.
Uniu global a local na cidade de Macururé, a 469
quilômetros de
Salvador.
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O muro da Escola Municipal Navarro de Brito, em
Macururé, e os estudantes em ação (abaixo): grafite com
motivos sertanejos no coração do semi-árido
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No muro
da Escola Municipal Navarro de Brito, 20 crianças de 7 a 17 anos
grafitaram o cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião; a matança da
cabra, comum nas feiras livres da região; a carcaça do boi morto
pela seca e o próprio homem do sertão. No alto, a frase "Sertanejo,
ser tão forte" contextualiza o desenho. Sobre a carcaça pregada no
muro, uma palavra muito presente na realidade: fome. "Ao mesmo tempo
em que valorizamos a cultura local, buscamos desenvolver a
subjetividade da criança, o que vai ajudar na sua formação como
cidadão", afirma Zélia Fajardini, coordenadora do Unisol em
Macururé. "Assim, ela compreende a si mesma e ao outro, começa a
respeitar as diferenças."
Antes
de chegar ao grafite, os alunos passaram por uma série de técnicas.
Durante três semanas, envolveram-se em oficinas de desenho, pintura
em acrílico e elaboração de esculturas utilizando ossos de animais,
além da produção de máscaras e objetos feitos com argila obtida nos
açudes da região. Tudo com temática sertaneja. As esculturas,
amarradas com arames, representaram a cabra, o calango e o guaiamu —
espécie de caranguejo do Nordeste.
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| O artista plástico Denis Sena ensina as crianças a montar esculturas com ossos de animais
mortos pela seca (à esq.) e, em outro momento
do trabalho, o grupo reproduz nas
telas a realidade do mundo em que vive (ao lado): produção, leitura
da imagem e contextualização
da obra
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A turma
aprendeu a história do grafite e do movimento hip-hop. Percebeu
também a importância de luz e sombra na composição dos desenhos. As
aulas foram dadas pelo artista plástico Denis Sena, 25 anos, autor
do livro Graffiti nas Escolas. "O grafite pode entrar em qualquer
sala de aula como recurso didático. No caso do sertão, o toque
agreste e o universo cultural próprio fazem da arte um instrumento
de resgate e conservação das manifestações folclóricas do povo",
afirma Sena. Giéliton Carlos Santos Silva, 12 anos, sentiu a
criatividade pulsar por meio da pintura. Transpôs para a tela em
acrílico o luar do sertão. No meio da escuridão, além das estrelas e
da lua, o único objeto que ele incluiu foi o xique-xique, espécie de
cactácea comum na caatinga. "Pintei e dei forma ao que vejo da minha
janela", resume o garoto.
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Do arranha-céu à caatinga |
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O
ensino da arte popular tem várias relações com as outras
disciplinas. Em Geografia, é possível trabalhar conceitos como
cidade, Estado, país e mundo. Em História, o contexto em que
surgem a arte e
seus movimentos. Em Língua Portuguesa, a
compreensão e a criação de
letras de músicas típicas. E em Ciências Naturais, o estudo de
obras que retratem o corpo humano.
Na hora de aplicar uma atividade sobre o tema
em sua escola, pesquise as manifestações populares com
que a turma mais se identifica. O bumba-meu-boi, por exemplo,
é um bom ponto de partida no Maranhão. A influência européia,
a indumentária do gaúcho e o chimarrão são temas que se
aplicam ao Rio Grande do Sul. Na Região Norte, a natureza
e as lendas indígenas oferecem farto material.
Já a obra do artista Siron Franco é uma grande
referência para quem está no
Centro-Oeste. |

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Ana Amália Barbosa, tel. (0_ _11)
3813-5285, e-mail: aatbb@hotmail.com
Denis Sena, tel. (0_ _71) 384-5223,
e-mail: denissena@bol.com.br
Valquíria Prates, tel. (0_ _11)
6978-6893, e-mail:
valquiriaprates@hotmail.com
Zélia Fajardini, tel. (0_ _71)
286-5151, e-mail: fajardini@uol.com.br
Bibliografia
A Imagem no Ensino da Arte, Ana Mae Barbosa, 152 págs., Ed.
Perspectiva, tel. (0_ _11) 3885-8388, 25 reais
Grafitti nas Escolas, Denis Sena, 27
págs., Ed. Uneb, tel. (0_ _71) 387-5040,
doações
institucionais | | | |